Grupo Pro-Évora exige conservação da Igreja da Graça

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Évora

Edificação primeira da arquitectura renascentista no Alentejo, a Igreja da Graça há muito que necessita de obras de conservação e restauro.

Apesar de não ser visível pela tomada de vistas da perspectiva inferior (aquela que
qualquer cidadão poderá realizar), verificou-se, numa vistoria efectuada há cerca de
uma década, que os elementos pétreos que compõem a fachada estão em clara
desagregação.

As quatro esculturas dos Atlantes, por exemplo, apelidados pelos
eborenses como os “Meninos da Graça”, arriscam diariamente a sua integridade,
faltando já partes das argamassas que os envolvem, sendo visíveis as estruturas
metálicas que os sustentam – de facto, não há memória de terem sido realizadas
intervenções de conservação dos elementos escultóricos da fachada nos últimos 40
anos.

Por outro lado, os pombos nidificam na Igreja – no que parece ser um problema
generalizado da cidade sem resposta adequada –, entupindo o sistema de drenagem
de água

Os Meninos da Graça estão em assinalável processo de degradação.
O Grupo Pro-Évora alertou os responsáveis pelo monumento.

Preocupado com a situação, o Grupo Pro-Évora (GPE) alertou os responsáveis pelo
monumento, afectado ao Exército/Ministério da Defesa Nacional, e a Direcção
Regional de Cultura do Alentejo (DRCA) em 2021 e nos anos seguintes, solicitando
informação sobre a existência de eventuais projectos de conservação e disponibilizando-se para lançar uma campanha de subscrição pública para angariação de fundos para as obras.

Em reunião ocorrida no corrente mês de Abril, o Director de Formação do Exército,
Major-General Vítor Dias de Almeida, esclareceu a Direcção do GPE acerca do processo
iniciado em 2023 visando a conservação do monumento, em parceria com a DRCA,
hoje integrada na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo,
a Arquidiocese de Évora, o Turismo de Portugal e a Câmara Municipal de Évora.

O estado de conservação da fachada e da cobertura da Igreja de Nossa Senhora da
Graça, um ex-libris da cidade de Évora, necessita de urgente intervenção de
conservação.

Está em preparação a apresentação de uma candidatura ao Turismo de Portugal para
financiamento de 70% dos custos da intervenção, cujo orçamento ultrapassa as
disponibilidades do Exército.

A nomeação de Évora como Capital Europeia da Cultura
em 2027 também constitui um importante incentivo para a realização da recuperação
da fachada e da cobertura da Igreja da Graça.

Degradação dos “Meninos da Graça”

Na mesma reunião, o GPE manifestou a
sua disponibilidade para colaborar naquilo que os responsáveis entenderem adequado
e para continuar a chamar a atenção para a urgência da intervenção.

O GPE vem dar conhecimento público deste processo, na expectativa de que sejam
ultrapassadas as dificuldades que afectam a concretização do projecto de recuperação
deste monumento emblemático do património eborense, também Património
Mundial.

Afirmação de Évora no Renascimento em Portugal

Évora ocupou um lugar ímpar no Renascimento português. Foi capital do reino durante
grandes períodos, quando a Corte ainda mantinha características itinerantes, típicas do
período medieval, estanciando em Évora e atraindo toda a sorte de artistas, artífices e
intelectuais, que, de forma indelével, deixaram o seu legado patrimonial.

A Igreja de Nossa Senhora da Graça é um monumento que se integra neste período, a
que nenhum cidadão fica indiferente, e pertenceu ao mosteiro dos frades eremitas
calçados de Santo Agostinho, fundado em 1511.

Foi projectada pelo arquitecto da Casa Real Miguel de Arruda, tendo colaborado no projecto o escultor Nicolau de Chanterenne e, muito provavelmente, o humanista André de Resende. A edificação do actual conjunto da Igreja e Convento de Nossa Senhora da Graça decorreu entre 1536 e 1546.

Apesar dos atentados à sua integridade, de que padeceu ao longo do tempo – entre
outros, foi bombardeada em 1663 no contexto da guerra da Restauração e sofreu o
desabamento da cobertura em 1884 –, a igreja nunca perdeu a beleza do seu
programa escultórico, de que se destacam os quatro “Meninos da Graça”.

As
esculturas que compõem a fachada, exemplo único na arquitectura nacional da época,
correspondem às primeiras manifestações do Maneirismo em Portugal, alinhadas com
a melhor reinterpretação da arquitectura e iconografia romanas. Historiadores de
Arte, como Manuel Branco ou Rafael Moreira, encontram no desenho desta igreja
alguns dos princípios arquitectónicos que teóricos ilustres, como Sebastiano Serlio e
Diego de Sagredo, descreveram nos seus tratados.

O reconhecimento do valor cultural e do interesse histórico e arquitectónico desta
igreja ficou bem patente na precocidade da sua classificação, pois foi um dos primeiros
imóveis a ser classificado como Monumento Nacional (Decreto de 16/06/1910).

O Convento e Igreja da Graça está afectado ao Exército/Ministério da Defesa Nacional.
Com a extinção da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais em 2007,
desapareceu a conservação preventiva dos monumentos classificados do Estado, como
é o caso da Igreja de Nossa Senhora da Graça de Évora, mas também, e com maior
gravidade, a própria responsabilidade pública pela sua salvaguarda. É tempo de os responsáveis olharem para a conservação do património como uma obrigação
constitucional – que o é! – e não como um custo.