Opinião
Opinião: Quebremos o estigma. Conversemos sobre Cancro do Pulmão
A opinião de Fernando Barata -Pneumologista da ULS de Coimbra
Opinião
Quebremos o estigma. Conversemos sobre Cancro do Pulmão
Para o Registo Oncológico Nacional, o cancro do pulmão foi em 2022, o segundo tipo de cancro mais incidente com 5.450 novos casos. No homem foram registados 3.777 novos casos (2º em incidência) e na mulher 1.673 novos casos (4º em incidência). O pico de incidência ocorreu entre os 70 e 74 anos. Entre nós, o cancro do pulmão é a principal causa de morte por doença oncológica. Mais de ¾ dos cancros do pulmão são causados pelo tabaco.
Após o diagnostico, o estigma – marca negativa associada a desvalorização, culpabilização e exclusão – associado ao cancro do pulmão tem efeitos negativos muitas vezes graves na vida das pessoas – um maior sofrimento físico, psicológico e espiritual, um maior isolamento social, uma pior qualidade de vida, ansiedade, angústia e depressão. Muitos doentes atrasam a procura de assistência médica e outros ocultam o seu diagnostico de pessoas próximas devido à vergonha. O estigma condiciona muitas vezes relações tensas, redução do apoio social e menor capacidade de defesa dos direitos.
Todos temos a percepção que os doentes mais jovens relatam consistentemente níveis mais elevados de estigma do que os adultos mais velhos. Que o desemprego, a privação ou baixos níveis de escolaridade estão associados a um maior estigma. Também, doentes com níveis mais elevados de propensão para a culpa, baixos níveis de apoio emocional, afetivo e informativo ou outras perturbações da personalidade apresentam maior estigma versus os doentes com níveis elevados de autoestima, autoeficácia, resiliência e comunicação aberta com níveis mais baixos de estigma. Indivíduos casados reportam menor estigma e vergonha do que solteiros, separados ou divorciados. Sendo o tabaco um comportamento individualmente controlável, um doente fumador ou ex-fumador, sente e culpabiliza-se pelo cancro do pulmão. O doente fumador sente-se desqualificado, excluído, descriminado, culpabilizado e muitas vezes com grande dificuldade em lidar com a doença. Com o diagnóstico, o tempo de vida ganha uma dimensão finita, quantificável. O doente e família vivem sentimentos de incerteza, desespero, medo, ansiedade.
Vimos como a natureza complexa e multidimensional do estigma do cancro do pulmão, incluindo os componentes intrínsecos e extrínsecos se cruzam com fatores demográficos, psicológicos, clínicos, comportamentais e interpessoais. Mas, a culpa não salva vidas.
Hoje, para todos os doentes com o diagnóstico de cancro do pulmão, incluindo os fumadores e ex-fumadores, há que ter confiança nos marcantes avanços da oncologia torácica.
Hoje, mesmo na doença avançada, é possível viver com normalidade, sem medo e boa qualidade de vida. Hoje, assistimos nos nossos doentes, o planear e construir o futuro profissional, familiar e individual. Vemos o tempo a decorrer com ausência de sintomas, um bom controlo da doença, o viver com uma doença crónica, uma vida normal.
Nos últimos dez anos, evoluímos nos cuidados oncológicos, quer a nível público, quer privado. Há inovação e otimização do diagnóstico ao tratamento. Há evolução na área cirúrgica com as cirurgias minimamente invasivas ou a cirurgia robótica. Há evolução na radio-oncologia com modernas tecnologias de precisão e eficácia. Há evolução nas terapêuticas sistémicas com a imunoterapia ou as terapêuticas alvo isoladas ou combinadas com a quimioterapia. Em breve novas vacinas, novos grupos terapêuticos, novas combinações.
Hoje temos um acompanhamento integrado, multidisciplinar do doente com cancro do pulmão, um envolvimento em rede dos cuidados paliativos, uma proximidade dos doentes com o centro de tratamento através de novas plataformas, uma maior participação dos nossos doentes em ensaios clínicos. Queremos aumentar a prevenção, a educação e a literacia sobre cancro do pulmão.
Vamos vencer o estigma do Cancro do Pulmão. Todos vamos conseguir.


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