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Entrevista TDS: O Alentejo e o sonho estão no Teatro Ibérico, em Lisboa. – TDS Radio e Televisão do Sul
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Entrevista TDS: O Alentejo e o sonho estão no Teatro Ibérico, em Lisboa.

Veja a entrevista exclusiva com a encenadora alentejana Rita Costa.

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O espetáculo é uma criação da encenadora Rita Costa, com texto de João Garcia Miguel e junta teatro e Cante Alentejano em palco.

“Uma encenação que revisita as “memórias de infância” da autora e que pretende ‘levar’ o Alentejo para a capital.”

A peça tem o nome “Além” e estreou no Teatro Ibérico na quinta-feira, dia 7 de abril. Aborda o caminho que se faz entre a busca do sonho e o “abandono” da terra, do Alentejo para a Grande Cidade, e todos os desafios que essa passagem implica.

O espetáculo conta ainda com Cante Alentejano ao vivo, pelo Grupo Coral Feminino “Papoilas do Enxoé”. A peça estará em cena até 17 de abril, de quinta-feira a sábado às 21h00 e aos domingos às 17h00.

Abaixo poderá ler, na integra, a entrevista exclusiva da encenadora alentejana Rita Costa à TDS.

TDS: Como surge a ideia desta peça? Qual é a base para a história?
Rita Costa: A ideia original desta peça surgiu através do meu projeto final de mestrado, que fiz em 2011 na Universidade de Évora, conjuntamente com a minha colega Lígia Santos. Nessa altura, a peça tinha o nome “À sombra” e retratava o Alentejo mais profundo. A Vanda R. Rodrigues, atriz que integra este espetáculo agora, tinha entrado na mesma Universidade e de alguma forma esta peça marcou-a. Por isso, desde que estou no Teatro Ibérico que me pede para a repor aqui, neste teatro. 

Este ano, talvez por sentir muitas saudades de casa, pois não tenho tido muito tempo para visitar a minha terra, a vontade de falar sobre as minhas raízes acentuou-se. Por tudo isto, decidi convidar o João Garcia Miguel para “reescrever” esta “À Sombra”, com palavras dele e sabendo, à priori, que iria ser um texto completamente diferente. Mais poético, talvez. Assim surge a peça “Além”, que junta textos meus e da Lígia Santos com o texto do João Garcia Miguel, quase que como dois mundos que se juntam. 

A obra faz exatamente o paralelismo entre a minha memória do que era viver nesta terra, durante a minha infância, e o meu caminho até chegar a Lisboa, onde resido atualmente, e para onde vim em busca do sonho de um lugar no mundo do Teatro. 

Sair da “terra-mãe” para a Grande Cidade, numa espécie de travessia sobre o desconhecido, é um processo de adaptação constante, onde a recordação, a memória e esse trajeto estão bastante presentes, de forma implícita, neste espetáculo. No fundo, este espetáculo aborda exatamente isso: a noção de “abandono da terra”, qual o impacto que isso tem em nós enquanto seres humanos e o que é que esta passagem para outro lugar implica. Onde estamos agora e como nos podemos sustentar nessa “falta de qualquer coisa” que sentimos?! 

TDS: Está presente um grupo de cante alentejano, que mais representações alentejanas estão presentes na peça?
RC: O grupo de cante alentejano está presente para trazer um pouco do Alentejo mais puro a palco. No fundo, a musicalidade alentejana, tão característica desta região, tem aqui o papel não só de levar o público a um lugar específico, mas também de ajudar as atrizes numa espécie de “passagem” para um outro tempo, um outro lugar – um sítio diferente do “aqui” e “agora”, um lugar “além”, que  está perto, mas não à mão de semear. Quisemos levar a palco as tradições musicais e gentes desta tão rica região do nosso país – o Alentejo – dando, por isso, voz às Papoilas do Enxoé, um grupo coral feminino de Vale de Vargo, Serpa. Todo o espetáculo é acompanhado pelas suas músicas, para que o Alentejo se faça sentir, através de cantes como “Ceifeirinha”, “Trigueirinha Alentejana” e muitos outros. A questão de serem todas mulheres também é importante para mim, pois permite-me dar ênfase ao papel da mulher no seio da sociedade alentejana, desafiando ao mesmo tempo a repensar a história da tradição oral desta região que é, ainda hoje, muito associada ao cante masculino. 

Além disso, para dar vida ao cenário, temos algumas espigas que aqui pretendem retratar a secura dos campos, infelizmente tão presente nos dias de hoje. 

Temos ainda os figurinos das atrizes Helena Baronet e Vanda R. Rodrigues, que não sendo totalmente ilustrativos, são alusivos aos trajes típicos que antigamente existiam. Trazemos também a palco uma Enfusa (Cântara), um objeto que era utilizado para ir buscar água e que de alguma forma contrasta com a secura da região. 

Todos estes símbolos estão bastante presentes na peça, para que a região onde nasci se faça sentir e para que os espectadores sejam envolvidos por estas tradições. Não são muitos elementos porque quis manter uma qualquer simplicidade que de alguma forma identifico com o Alentejo. 

TDS: A peça pretende levar os espectadores a que sítios? A viver o quê? Sentir o quê?
RC: Por um lado, esta peça pretende conduzir todos os espectadores ao Alentejo mais profundo e a várias características peculiares deste espaço, levando-os a viver e a conhecer, durante o período em que decorre o espetáculo, parte das suas tradições e raízes. Por outro lado, transporta-os para uma espécie de “transtorno” vivido nas Grandes Cidades, permitindo-nos refletir sobre nós mesmos neste percurso que fazemos muitas vezes entre a ambição e o querer algo maior e até onde é que isso nos leva. 

No fundo, pretende-se que todos possam pensar sobre este percurso desafiante que é necessário ser feito para se chegar onde mais se deseja, fazendo esta constante passagem e dualidade entre o ponto onde se está agora e as memórias que nos permitem manter o coração a bater. O espetáculo aborda a dimensão da memória, desta ideia de “terra-mãe”, entre a nossa condição humana na vida atual e uma constante perseguição do sonho que já não sabemos se é real ou ficcional. 

TDS: O “sonho” da menina que deixou o Alentejo rumo à capital, concretizou- se? É esta peça o culminar do seu sonho?
RC: O Sonho é para mim o percorrer de vários caminhos que nunca se esgotam. O que sonho hoje amanhã poderá ser outra coisa. É na caminhada que aprendo e onde me sinto feliz, numa qualquer direção que nunca está certa nem errada e que não tem fim à vista, tem apenas de ser feita. A minha vinda para Lisboa foi em busca de poder exercer a minha profissão. Neste momento, já se passaram mais de 10 anos e posso dizer que valeu tudo a pena. Ser encenadora e criar as minhas próprias peças é, sem dúvida, um caminho percorrido. Além disso, ter assumido o papel de diretora do Teatro Ibérico e poder fazê-lo crescer, desenvolvendo projetos tão únicos e originais, é uma caminhada única que estou grata por poder ter feito. Mas tudo isto devo-o às minhas raízes: às gentes e terras que me ensinaram que percorrer caminho significa continuar a crescer, seja em que direção for. E que tudo o que consegui foi sempre fruto da semente plantada “lá atrás”, com tudo o que isso acarreta. É com grande satisfação e gratidão que quero continuar a contribuir, de alguma forma, para a nossa grande cultura portuguesa e, especialmente, para esta arte que é o teatro, continuando sempre a aprender na caminhada. Entre os meus vários objetivos, quero continuar a contribuir para um teatro mais inclusivo, através, por exemplo, da possibilidade de pessoas com necessidades específicas poderem assistir às peças que são feitas no Teatro Ibérico, através de sessões adaptadas em Língua Gestual Portuguesa, audiodescrição, entre outros aspetos. Mesmo passados estes anos, senti a necessidade de revisitar o meu passado, sendo precisamente daí que surge esta peça. É uma espécie de revisitação de casa, um reviver das minhas memórias, uma “viagem” às raízes com um toque muito especial da Rita atual, que é mais citadina, sem nunca esquecer de onde veio nem quais as origens. 

TDS: Por último, qual é a sensação de levar o Alentejo a Lisboa? Como se sente? O que isso representa para si?
RC:Levar o “meu” Alentejo até ao palco do Teatro Ibérico, em Lisboa, é uma sensação indescritível. Trazer memórias da peça “À sombra” juntamente com o texto do João significa recordar pessoas que já cá não estão, mas que ajudaram a construir isto e, ao mesmo tempo, homenagear os que ainda vivem entre nós e nos abraçam constantemente tornando tudo isto “ainda” possível. É trazer um pouco da minha casa-mãe para a minha casa atual. É remexer em cartas, documentos antigos que, de certa forma, foram e são veículos que me trouxeram até aqui, agora. 

Apesar de sentir que o Alentejo está cada vez mais perto dos grandes centros, sinto que com esta peça estamos a dar espaço a um “novo” Alentejo na cidade de Lisboa. Por isso, convido todos, alentejanos ou não, a visitarem o Teatro Ibérico e a assistirem a uma das sessões da peça “Além”, que estará em cena de 7 a 17 de abril, de quinta a sábado às 21:00 e aos domingos às 17:00. 

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Agenda

Salvador Sobral nos serões dos claustros, em Portel.

De 9 e 12 de junho.

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PORTEL

NOS SERÕES DOS CLAUSTROS

Com uma programação eclética e assente na diversidade das artes de rua e palco, NOS SERÕES DOS CLAUSTROS, assume-se cada vez mais como um evento de referência na divulgação e apresentação de intervenções performativas, as quais contribuem significativamente para a formação de novos públicos.

Evento gerador na capacidade de atrair atenções para o contexto imaterial, NOS SERÕES DOS CLAUSTROS recria a mais inusitada relação entre a Arte o Humor e o Petisco.
Fortalecer a prática das várias artes performativas, fomentar a formação de novos públicos e criar uma imagem de singularidade em termos culturais no interior do país é um dos principais propósitos deste evento, promovido pela Câmara Municipal de Portel, o qual tem lugar este ano, entre os dias 9 e 12 de junho.

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Agenda

Está inaugurado o 11º Festival Islâmico

A 11ª edição do Festival islâmico de Mértola prossegue até ao próximo domingo dia 22 de maio.

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Cerimónia de Inauguração Oficial

11º Festival Islâmico

A cerimónia oficial de inauguração da 11ª edição do Festival Islâmico de Mértola, realizou-se, quinta-feira, 19 de maio ao final da tarde, no anfiteatro do Castelo de Mértola.

A cerimónia contou com a presença de Mário Tomé, Presidente da Câmara Municipal de Mértola e restantes elementos do executivo. A sessão de abertura foi igualmente marcada pela presença de Ana Abrunhosa, Ministra da Coesão Territorial; Ceia da Silva, Presidente da CCDRA; dos deputados Nélson Brito e Pedro do Carmo; Ana Paula Amendoeira, Diretora Regional da Cultura do Alentejo; António Bota, Presidente da CIMBAL; Sua Excelência o Sr. Embaixador de Sua Majestade o Rei de Marrocos em Portugal, Othman Bahnini; Vitor Fernandez da Silva, Presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo e, Jalid Nietto, Vice-Presidente da Fundação Mesquita de Sevilla.

Sexta-feira, dia 20, cumpre-se o segundo dia do Festival Islâmico de Mértola.

Ana Abrunhosa, Ministra da Coesão Territorial, prossegue igualmente a sua visita, fazendo parte da sua agenda no período da manhã, uma deslocação às instalações do Salão de Chá, Hammam no Centro Histórico da Vila Museu.

Uma hora mais tarde, pelas 10h00, realiza-se uma visita às instalações provisórias da Estação Bióloga e, posteriormente, ao edifício a recuperar em Além Rio, local privilegiado de vista panorâmica para a Vila Museu e futuro local onde irá nascer este importante centro de pesquisa, um projeto de extrema importância para o desenvolvimento local, regional e internacional.

Pelas 12h00, Ana Abrunhosa, e restante comitiva visitam o Cine Teatro da Mina de São Domingos. Às 12H45, em Picoitos, está agendada uma visita ao Sistema de Saneamento de Águas Residuais desta localidade. Outra das grandes obras do Município de Mértola em prole da qualidade de vida dos seus munícipes.

Para terminar a sua visita a esta 11ª edição do Festival islâmico e ao Concelho de Mértola, realiza-se um almoço no restaurante Al Andaluz em Santana de Cambas.

A 11ª edição do Festival islâmico de Mértola prossegue até ao próximo domingo dia 22 de maio.

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